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Open Finance: O que acontece quando o Consumidor autoriza o compartilhamento de seus Dados Bancários?

Foto do escritor: Yanna Raissa Couto
Yanna Raissa Couto
há 4 horas
8 min de leitura

Ao acessar o aplicativo do banco, o consumidor pode se deparar com uma opção aparentemente simples: “Trazer seus dados de outra instituição”, “compartilhar seus dados” ou “conectar suas contas pelo Open Finance”.


Em poucos minutos, é possível autorizar que informações mantidas por um banco sejam compartilhadas com outra instituição financeira. A proposta pode vir acompanhada de benefícios como ofertas personalizadas, organização da vida financeira, análise de crédito ou possibilidade de visualizar contas de diferentes instituições em um único aplicativo.


Mas, diante dessa facilidade, surge uma dúvida importante: O que exatamente acontece quando o consumidor autoriza o compartilhamento de seus dados bancários? Autorizar o Open Finance não significa entregar ao banco acesso irrestrito à vida financeira. O compartilhamento depende da manifestação do consumidor, possui finalidade determinada e deve indicar quais informações poderão ser acessadas e por quanto tempo.


Por isso, antes de clicar em “autorizar”, é importante compreender quem receberá os dados, quais informações serão compartilhadas, para qual finalidade serão utilizadas e como cancelar essa autorização posteriormente.


O que é o Open Finance?


O Open Finance é uma estrutura regulamentada pelo Banco Central que permite a comunicação entre instituições financeiras e de pagamento para o compartilhamento de determinados dados e a prestação de serviços, desde que observadas as regras aplicáveis.


Na prática, ele permite que o consumidor leve parte de seu histórico financeiro de uma instituição para outra sem precisar reunir manualmente extratos, comprovantes e diversas outras informações.


Imagine, por exemplo, que uma pessoa possua conta no Banco A há vários anos e decida solicitar crédito no Banco B. Por meio do Open Finance, ela pode autorizar que determinados dados mantidos no Banco A sejam enviados ao Banco B, permitindo que essa segunda instituição conheça melhor seu relacionamento financeiro.


O Banco Central explica que a transmissão ocorre diretamente entre as instituições escolhidas pelo cliente, utilizando interfaces tecnológicas conhecidas como APIs, sem a existência de uma base central em que todos os dados financeiros dos usuários sejam armazenados.


O ponto central desse sistema é justamente a autonomia do consumidor sobre o compartilhamento.


O que acontece quando o Consumidor autoriza o Compartilhamento?


O processo normalmente começa no aplicativo ou internet banking da instituição que receberá as informações. O consumidor escolhe de qual instituição deseja trazer seus dados e deve visualizar informações como a finalidade do compartilhamento, o período da autorização e os dados que serão acessados.


Depois disso, é direcionado para o ambiente da instituição que atualmente possui essas informações. Nesse local, realiza sua autenticação e confirma se realmente deseja compartilhar os dados.


Finalizada a confirmação, as instituições passam a se comunicar diretamente e a receptora recebe somente as informações abrangidas pela autorização concedida. Segundo o Banco Central, cada autorização ocorre entre as instituições escolhidas pelo consumidor. Caso ele queira compartilhar informações provenientes de outro banco, será necessária uma nova autorização.


Portanto, quando o consumidor aceita o Open Finance, ele não está simplesmente dizendo “vocês podem acessar meus dados”. Na realidade, a decisão deveria responder a perguntas muito mais específicas: Quais dados? Para qual instituição? Para qual finalidade? E durante quanto tempo?


Quais Dados Bancários podem ser Compartilhados?


O Open Finance pode envolver uma quantidade relevante de informações sobre a vida financeira do consumidor. Entre os dados que podem ser compartilhados estão informações cadastrais, como nome, CPF, telefone e endereço; informações de contas bancárias, como saldos, extratos e limites; informações de cartões de crédito, incluindo compras, faturas e limites; contratos de empréstimos e financiamentos; investimentos; e operações de câmbio.


Antes da autorização, entretanto, o consumidor deve conseguir identificar quais informações estarão abrangidas pelo compartilhamento. Um ponto especialmente importante é que senhas, tokens e outras credenciais de segurança não fazem parte dos dados compartilhados pelo Open Finance.


Assim, se alguém entrar em contato solicitando senha bancária, código de segurança ou token sob a justificativa de “ativar o Open Finance”, essa solicitação merece atenção.


Autorizar o Open Finance significa permitir acesso ilimitado à minha Conta?


Não. A regulamentação define o consentimento no Open Finance como uma manifestação livre, informada, prévia e inequívoca, realizada eletronicamente e relacionada a finalidades determinadas.


Além disso, as instituições devem informar elementos como as instituições participantes, os dados ou serviços que serão compartilhados, o período de validade da autorização e, quando aplicável, sua finalidade.


Isso significa que a autorização não deve funcionar como uma espécie de “cheque em branco digital”. O consumidor precisa ter condições de compreender o que está aceitando.


Essa lógica também se aproxima dos princípios estabelecidos pela Lei Geral de Proteção de Dados — LGPD. A legislação determina que o tratamento de dados observe, entre outros, os princípios da finalidade, adequação e necessidade, limitando o tratamento aos dados pertinentes e necessários para determinada finalidade.


O Banco pode usar os Dados para qualquer finalidade?


A existência de uma autorização não significa que os dados possam ser utilizados indiscriminadamente. A LGPD estabelece que o consentimento, quando utilizado como fundamento para o tratamento de dados, deve estar relacionado a finalidades determinadas, sendo inválidas autorizações genéricas. A lei também assegura ao titular informações claras sobre a finalidade, a duração do tratamento e eventual compartilhamento de seus dados.


No próprio ambiente do Open Finance, a regulamentação exige transparência em relação à finalidade da autorização. Por isso, o consumidor deve prestar especial atenção à pergunta: “Para que esta instituição quer os meus dados?”


Uma coisa é compartilhar informações para que determinado banco analise uma solicitação de crédito ou ofereça uma ferramenta de organização financeira. Outra é conceder uma autorização sem compreender como aquelas informações serão utilizadas. Quanto mais clara estiver a finalidade, mais consciente poderá ser a decisão.


Compartilhar Dados significa autorizar Débitos ou Transferências?


Não necessariamente. O compartilhamento de dados e os serviços de pagamento são funcionalidades distintas dentro da estrutura do Open Finance. Autorizar que uma instituição visualize informações sobre contas, cartões ou operações de crédito não significa, por si só, conceder autorização para movimentar o dinheiro disponível na conta.


O Open Finance também possui funcionalidades relacionadas a pagamentos e transferências, inclusive por meio do Pix, mas elas seguem processos e autorizações próprios. O próprio Banco Central diferencia o compartilhamento de dados dos serviços de iniciação de pagamentos.


Essa distinção é importante porque o consumidor pode imaginar que, ao permitir acesso ao extrato ou ao saldo, também estaria permitindo que a instituição realize movimentações financeiras. Compartilhar informação e autorizar pagamento não são a mesma coisa.


O Open Finance pode ajudar na obtenção de Crédito?


Pode contribuir para uma análise mais completa da situação financeira do consumidor. Uma instituição com a qual a pessoa possui pouco relacionamento pode conhecer apenas uma pequena parte de seu histórico. Ao receber dados de outras instituições, ela pode ter mais informações para avaliar aquele cliente.


O Banco Central aponta entre os possíveis benefícios do Open Finance a oferta de produtos mais personalizados, maior facilidade na contratação de determinados serviços e a possibilidade de condições financeiras mais adequadas ao perfil do cliente.


Entretanto, é importante fazer uma ressalva: Compartilhar dados não garante aprovação de crédito, aumento de limite ou redução de juros. Essas decisões continuam dependendo dos critérios utilizados pela instituição financeira e das circunstâncias concretas de cada consumidor.


Portanto, uma mensagem afirmando que basta autorizar o Open Finance para obter determinado empréstimo ou redução garantida de juros deve ser analisada com cautela.


Posso cancelar a Autorização depois?


Sim. Esse é um dos aspectos mais importantes da autonomia do consumidor no Open Finance. A regulamentação estabelece que as instituições envolvidas devem permitir a revogação da autorização a qualquer momento, mediante procedimento seguro, ágil e conveniente. No compartilhamento de dados, o Banco Central informa que o cancelamento pode ser solicitado tanto na instituição receptora quanto naquela que transmite as informações e deve ser processado imediatamente.


A LGPD também assegura, quando o tratamento estiver fundamentado no consentimento, a possibilidade de revogação mediante procedimento gratuito e facilitado.


Isso significa que o consumidor não precisa permanecer compartilhando suas informações simplesmente porque autorizou o acesso anteriormente. Se a finalidade deixou de fazer sentido, se o serviço não é mais utilizado ou se o consumidor simplesmente não deseja continuar, a autorização pode ser cancelada.


Cancelar o Compartilhamento apaga todos os Dados que já foram enviados?


Esse ponto exige atenção. Cancelar uma autorização impede a continuidade do compartilhamento abrangido por aquele consentimento, mas não significa necessariamente que todos os dados que já foram legitimamente recebidos serão apagados de maneira automática naquele mesmo instante.


A LGPD prevê hipóteses em que dados podem ser conservados mesmo após o término do tratamento, como para cumprimento de obrigação legal ou regulatória. Ao mesmo tempo, assegura ao titular direitos relacionados ao acesso, correção, bloqueio, eliminação e obtenção de informações sobre o uso de seus dados, conforme cada situação.


Por isso, caso o consumidor queira saber quais informações continuam armazenadas após o cancelamento, poderá solicitar esclarecimentos à instituição responsável pelo tratamento.


Revogar o Open Finance e solicitar a eliminação de determinados dados são questões relacionadas, mas juridicamente não são necessariamente a mesma providência.


E a Proteção prevista no Código de Defesa do Consumidor?


Quando o Open Finance é utilizado dentro de uma relação de consumo envolvendo produtos e serviços financeiros, os deveres de transparência e informação também assumem especial relevância.


O Código de Defesa do Consumidor estabelece como direito básico a prestação de informações adequadas e claras sobre produtos e serviços. Também prevê responsabilidade pela reparação de danos decorrentes de defeitos na prestação dos serviços e de informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e seus riscos.


No ambiente digital, uma autorização apresentada de maneira confusa pode comprometer a compreensão do consumidor. Por isso, expressões genéricas como “aceite para continuar” não deveriam impedir que a pessoa saiba, de maneira clara, exatamente o que está autorizando. Tecnologia e facilidade não afastam o dever de informação.


O Open Finance é Seguro?


O sistema possui regras específicas de segurança e utiliza comunicação direta entre as instituições participantes por meio de APIs. Segundo o Banco Central, os dados são transmitidos de forma criptografada, e as instituições participantes estão submetidas às regras aplicáveis de segurança, sigilo bancário e proteção de dados.


Entretanto, a existência de uma infraestrutura segura não elimina a necessidade de cautela por parte do consumidor. Golpes podem tentar explorar justamente o desconhecimento sobre novas tecnologias bancárias. Um fraudador pode enviar mensagens informando que seria necessário “atualizar o Open Finance”, “liberar o compartilhamento” ou “confirmar dados” por meio de links externos.


O processo legítimo deve ocorrer dentro dos canais oficiais das instituições envolvidas, com autenticação no aplicativo ou internet banking. O consumidor não deve fornecer senha, token ou credenciais de segurança a terceiros.


Quais cuidados tomar antes de autorizar o Open Finance?


Antes de confirmar o compartilhamento, algumas verificações são importantes:


  • Confira qual instituição receberá os dados: Certifique-se de que você realmente pretende iniciar ou ampliar o relacionamento com aquela empresa.


  • Leia a finalidade da autorização: Entenda para que os dados serão utilizados e qual benefício ou serviço está relacionado ao compartilhamento.


  • Observe quais informações serão enviadas: Não confirme automaticamente. Veja se serão compartilhados dados cadastrais, extratos, cartões, crédito, investimentos ou outras informações.


  • Verifique o prazo: Identifique durante quanto tempo aquela autorização permanecerá ativa.


  • Utilize somente os canais oficiais: Inicie e confirme o procedimento pelo aplicativo ou internet banking das instituições envolvidas.


  • Nunca informe senha ou token a terceiros: Essas credenciais não fazem parte do compartilhamento de dados pelo Open Finance.


  • Não confunda compartilhamento com garantia de benefício: Autorizar dados não significa aprovação automática de crédito, redução garantida de juros ou aumento obrigatório de limite.


  • Revise suas autorizações periodicamente: Caso não utilize mais determinado serviço, avalie se ainda existe razão para manter o compartilhamento ativo.


  • Guarde registros importantes: Em caso de divergência, prints, protocolos, mensagens e comprovantes podem ajudar a demonstrar quais informações foram apresentadas durante a autorização.


Se os Dados são meus, a Decisão também deve ser minha!


O Open Finance representa uma mudança importante na relação entre consumidor e instituições financeiras. Durante muito tempo, grande parte do histórico financeiro de uma pessoa permanecia concentrada na instituição com a qual ela mantinha relacionamento.


Com o Open Finance, o consumidor pode utilizar essas informações para buscar serviços em outras instituições e organizar melhor sua vida financeira. Entretanto, essa facilidade somente cumpre sua finalidade quando acompanhada de informação e liberdade de escolha.


A pergunta não deve ser apenas “Posso compartilhar meus dados?”. Também é necessário perguntar: “Quais dados estou compartilhando, com quem, por qual motivo e durante quanto tempo?”


A tecnologia pode tornar o processo mais rápido, mas não deve tornar a decisão menos consciente. Autorizar o Open Finance não significa renunciar à privacidade nem conceder acesso irrestrito à vida financeira. O compartilhamento possui limites, deve atender a finalidades determinadas e pode ser revogado pelo consumidor.


Em uma relação financeira cada vez mais digital, compreender essas escolhas é também uma forma de exercer autonomia. Os dados financeiros podem circular com mais facilidade, mas o consumidor continua sendo parte central dessa decisão.


Você autorizou o compartilhamento de dados pelo Open Finance e tem dúvidas sobre o uso das informações, uma autorização que não reconhece, dificuldades para cancelar o acesso ou prejuízos decorrentes do tratamento dos seus dados? Busque orientação jurídica para analisar os documentos, registros e circunstâncias do caso e verificar as medidas adequadas.

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